O Canário Morto
BERNARDINO LOPESEra a doce alegria da minha vida;
enchia-me a saleta de garridice e deliciosos trilos,
desde a alvorada até o findar do dia
Vivíamos tranqüilos;
eu um pobre poeta,
ele um tenor, um belga superfino,
lourinho, muito louro,
como um filhinho trêfego de ingleses,
olhos inquietos e pescoço fino.
Nós tínhamos, às vezes,
duos de flauta - original orquestra!
- em vez de refeição ou de palestra.
E ouviam-se risadas
que pareciam moedinhas de ouro
sobre mesa de mármore atiradas,
quando o sol de janeiro
entrava rindo pela casa dentro,
e vinha-nos o cheiro
dos próximos hotéis, da salsa e coentro,
das hortas cheias de repolho e celga.
Ai! com tristeza o digo:
morreu cantando o meu canário belga!
envolve-o a sombra de feral mistério.
Minha saudade roxa, vem comigo
ao triste cemitério
do meu quintal, onde enterrei aquele,
que foi na vida o meu melhor amigo
e para onde agora a dor me impele...
Tenho os olhos de lágrimas pisados!
No dia de finados,
canários que passais,
orai por ele.